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Tuesday, November 07, 2006

Passividade

Da cama, calmamente, se levanta
Dorme, sem sentido.
Vive, sem sentido.
Come, para não morrer.
Não pergunta, para não responder.
Observa, como um cego.
Canta, como um mudo.
Ouve o que lhe dizem, como um surdo.
E anda, como um paralítico, anda!
Sobe ate ao sétimo andar,
E escorre como água até ao chão,
Embate na lama, cai no chão
Como se fosse para a cama depois de mais um dia…


Sonha, ir até ao outro lado da rua,
Cometer o crime, sentir satisfação.
Oscilar no parapeito.
Sentir o coração no peito.
Abraçar os tentáculos de Deus.
Ascender aos infernos,
Descer aos céus…
E deixar-se ficar,
Num turbilhão,
De quietude activa, ficar…
Mas o sonho acaba…
A passividade regressa.
O coração, pára!
E morre, no leito da vivência passiva.
violino sem cordas

Saturday, March 04, 2006

A sombra do entardecer

Invisível, a sua sombra se aproxima,
Outrora firme, negra, bem traçada,
Vulto do animal que desconfia
Daquele que se impõe pelo imposto,
Seguro do refúgio da utopia
Deixou se envenenar na essência,
de si próprio, do mundo, da natureza...
Hoje uiva, grita, geme cansada
A sombra, a metade de si mesmo
Enganado pela ilusão por si criada,
Desesperado por tão louca fantasia
Por estar preso na sua própria carnificina.
Aniquilou ou julgou ter aniquilado,
a sombra invisível que regressa,
cada passo, cada dia mais cansado...
Arrasta-se, geme e recua
Regressa a si próprio, ao seu passado…
O olhar felino afunda-se nas brumas,
Fixo nos olhares que não existem,
Fixo nos olhares que nunca existiram!
O animal e a sombra do entardecer...



Violino sem Cordas

Saturday, February 18, 2006

Negação

Enlouqueço gradualmente
Num universo hipocritamente sano
Observo insanamente quem vejo
Através do reflexo de um espelho.

Numa dança graciosa, aparente,
Rígida, bela, tortuosa,
Os pés sangram a cada volta,
Bailam num mar de pedaços espelhados...
Num mundo erradamente perfeito,
num mundo eternamente parado...

Quem sois vós plantas carnívoras?
Quem sois vós distorções da verdade?
Pergunto e não recebo resposta,
Deste mundo erradamente parado...

Penetro num túnel de caras
De rostos pálidos inexpressivos...
Pergunto-me, mil vezes me pergunto,
De quem são os rostos carnívoros?
Bajuladores cínicos, hipócritas,
De olhar sorridente, mas frio...?

A evidente resposta não tardou
São os rostos reflexos de mim próprio.
Os defeitos, o resultado da negação,
Da minha pessoa e da minha sanidade...

Violino sem cordas

Saturday, February 11, 2006

Cortinas de neblina

Num palco, cujas brumas são cortinas
Onde o vento é espectador atento,
As arvores,
sombrias marionetas, ganham vida!
Consagrando-se majestosas bailarinas.
Unem-se abraçam-se, fundem-se
Até o sarcasmo flamejante as encontrar,
Uma seta de descrença as atingir,
Choram na vergonha, no silêncio
Sangram prostradas, nuas
Aos olhos dos que não crêem
na ilusão no palco criada
O vento rindo, incendeia-as
e uma a uma,
arde na ironia de tal acto,
Quem deveria arder no fulgor do bailado
Arder em êxtase, não em descrença
seriam os espectadores do palco da neblina
Não elas, jamais elas...
E o palco ficou vazio...
Os aplausos afastaram as brumas
O sol caminhou altivo
Sol apenas luz
nada mais...
apenas nada...


Violino sem cordas

Sunday, January 29, 2006

O poeta deve morrer!

A multidão reclama o sangue do poeta. A espera tornou-se demasiado longa e a exasperada audiência anseia pelo sangue derramado nas páginas do livro. Grunhem incessantemente as mesmas palavras que de tão repetidas quase já perderam o sentido:
- O poeta deve morrer! O poeta deve morrer! O-p-o-e-t-a-d-e-v-e-m-o-r-r-e-r-o-p-o-e-t-a-d-e-v-e-m-o-r-r-e-r !
O sentido já não importa, o ideal que move a multidão há muito que pereceu na repetição da sentença…Já não sabem porque desejam a sua morte mas não param sequer para reflectir! O poeta deve morrer, é um dogma, uma verdade incontestável! È assim, porque tem de ser, o poeta deve morrer para dar lugar á sua poesia…
A sua poesia nasceu num dia como qualquer outro. Um dia vulgar, deu á luz o fruto da apreciação de gerações de poetas perdidos na ideologia mortal do poeta supremo. “Valeu a pena? Tudo vale a pena!” – Assim diz Fernando Pessoa aquele que fascina os corações da nova geração de poetas assim como Florbela o fez e ainda faz…
“Valeu a pena? Tudo vale a pena!” Sem a sua morte, o que teria sido das gerações posteriores? O que teria sido da alma dos pensadores que um dia se fizeram poetas?
O poeta deve morrer…È esse o sentido da escrita… A interpretação depende do escritor da poesia e quanto mais dramático for o seu fado melhor! A morte da sentido ás suas palavras…O suicídio então, cria um tal sabor, uma tal paisagem, que a poesia se torna no escritor…
E o que acontece quando a poesia veste as roupagens do poeta? Quando a poesia, se transforma num homem, num sonhador?! Exige o lugar do poeta, reclama, grunhe, escarnece do poema e da vida do autor!
O poeta deve morrer! Assim diz o povo e a história:
- Não há maior alegria e gloria do que na morte do poeta para o leitor!

Violino sem cordas
COIN OPERATED BOY (The Dresden Dolls)

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